Consulado y Trámites

O outro lado das gelaterias: como a Alemanha via Belluno virou projeto de vida no Sul catarinense

Além das denúncias sobre condições de trabalho, pesquisas e relatos locais mostram que a migração de catarinenses para sorveterias alemãs, facilitada pela cidadania italiana e redes de Belluno, representou para muitos uma oportunidade econômica disputada durante décadas.

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A repercussão das denúncias sobre condições de trabalho nas gelaterias alemãs gerou reações não só entre empresários italianos, mas também entre parte dos próprios brasileiros que atuam no setor. Relatos recebidos indicam contrariedade com a dimensão do caso e com as acusações, embora isso não invalide as experiências relatadas a veículos alemães.

Essa resistência ajuda a completar a história. No Sul catarinense, especialmente em Urussanga, Siderópolis, Cocal do Sul e Criciúma, conseguir a cidadania italiana, o passaporte e uma vaga em sorveterias na Alemanha foi, por mais de três décadas, visto como uma via de melhoria de vida. Não se tratava de trabalho leve, e pesquisas acadêmicas registram jornadas exaustivas, conflitos contratuais e famílias separadas. Porém, a documentação disponível não permite reduzir o fenômeno a uma simples narrativa de exploração: era uma oportunidade buscada ativamente, alimentada por redes que conectavam a região diretamente ao Bellunese.

A relação não surgiu espontaneamente. A tese de doutorado de Diane Portugueis, defendida em 2018 na PUC-SP, analisa os “sorveteiros ítalo-brasileiros entre Itália, Alemanha e Brasil” e descreve uma rede consolidada entre Urussanga e Longarone. Ela facilitava a obtenção do passaporte italiano, o recrutamento, a preparação e a inserção nas gelaterias alemãs. Os trabalhadores mantinham laços com a cidade de origem, onde investiam em propriedades pensando no retorno.

Pesquisa de Liziane Acordi Rocha, defendida em 2024 na Unesc, traz elementos concretos do início dessa dinâmica. Em outubro de 1991, o presidente da Associação dos Amigos de Urussanga em Longarone enviou 30 contratos de trabalho para jovens urussanguenses. Correspondência de Marcello Mazzuco, datada de 4 de setembro de 1991, informava o interesse de proprietários de sorveterias e restaurantes italianos na Alemanha em contratar mão de obra local. A proposta era vendida como emprego, ganho financeiro, contato cultural e aprendizado profissional.

O gemellaggio entre Urussanga e Longarone, que envolvia intercâmbios culturais, música e memória imigratória, criou também uma ponte econômica concreta. A tese de Portugueis registra contatos com a Uniteis e o encaminhamento de urussanguenses para sorveterias ligadas a belluneses na Alemanha. Um entrevistado lembrou que, em 1992, integrou um grupo de seis pessoas que viajou graças a essas relações e se definiu como “um dos felizardos” por ter tido a chance.

A cidadania italiana foi peça central. Documentos antigos analisados por Rocha exigiam passaporte italiano e previam trabalho na Alemanha de 1º de março a 30 de setembro, com remuneração líquida aproximada de 1.100 dólares por cerca de 285 horas mensais, alojamento e alimentação inclusos, e possibilidade de horas extras sem adicional. A passagem era adiantada e descontada depois. O trabalho pesado já estava presente desde o início do fluxo migratório, mas a remuneração em moeda forte permitia conquistas no Brasil que pareciam inalcançáveis localmente.

Entrevistados por Rocha, Franciele e Paulo, que tinham emprego formal e casa financiada no Brasil, decidiram entrar no circuito após verem vizinhos voltarem com bens. “A gente via que todo mundo que vai pra Alemanha consegue conquistar as coisas”, explicou Franciele. Planejavam cinco temporadas; em 2023, preparavam a oitava. Reconheceram ter ido “meio iludidos” pela imagem criada por quem regressava, mas continuaram porque as primeiras temporadas quitaram dívidas e permitiram avanços materiais.

O sucesso visível funcionava como propaganda. O dinheiro da Alemanha se materializava em terrenos, casas, apartamentos e reformas. A dissertação de Rocha documenta investimentos em imóveis antes mesmo da casa própria, compras de apartamentos para aluguel e reformas. A paisagem de Urussanga mudou: dados do Departamento de Planejamento Municipal indicam crescimento de edificações multifamiliares e empresas de construção ao longo das décadas. A pesquisadora relaciona o fluxo migratório como um dos fatores, sem atribuir-lhe toda a responsabilidade pela verticalização urbana.

Em 10 de abril de 2008, o jornal Vanguarda já ironizava o “efeito Alemanha” ao notar preços de apartamentos em Urussanga superiores aos do centro de Criciúma. A expressão se referia ao imaginário do “migrante que deu certo”. Relatos orais falavam de um edifício de cerca de 30 apartamentos em Cocal do Sul comprado majoritariamente por “sorveteiros”, com facilidades de financiamento negadas a outros compradores. A edição nº 302 da Insieme (novembro/dezembro de 2024, pp. 150-151) registrou que, no mesmo município, um prédio de 30 unidades foi vendido com exceção de apenas três a “sorveteiros”, que encontravam “facilitações” em financiamentos.

Em Siderópolis, a reportagem da Insieme descreveu grandes residências construídas por trabalhadores que alternavam temporadas na Alemanha e no Brasil. Alguns se tornaram empresários e o investimento imobiliário era recorrente. O Plano Municipal de Saúde 2018–2021 da prefeitura de Siderópolis dedicou uma seção à emigração: centenas de jovens eram atraídos por empregos e rendas mais vantajosas, muitos em sorveterias alemãs, estimulados pela dupla cidadania, redes familiares e situações de insatisfação profissional no Brasil.

O fenômeno, portanto, tem duas faces. As denúncias recentes sobre jornadas excessivas e pagamentos inadequados, se comprovadas, violam a legislação alemã e merecem apuração. Ao mesmo tempo, a memória local e as pesquisas acadêmicas mostram que, para muitos, o caminho via Belluno e a cidadania italiana representaram um projeto concreto de ascensão, cujos frutos ainda moldam a paisagem urbana e econômica do Sul catarinense.

Vigente al: 26 de agosto de 2026.

Fontes primárias e acadêmicas:

  • Tese de Diane Portugueis (2018, PUC-SP).
  • Dissertação de Liziane Acordi Rocha (2024, Unesc).
  • Plano Municipal de Saúde 2018–2021 de Siderópolis.
  • Reportagem publicada na revista Insieme nº 302 (novembro/dezembro de 2024).

Adaptado de Insieme.

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